Sou velho!
Tenho 82 anos, talvez 83…já nem sei muito bem quantas Invernos vivi. Será que este (Inverno) será transponível?
Estou doente, tenho a doença que o Santo Padre também tinha e que o fazia tremelicar. Parece que se chama Park…qualquer coisa. Nem sempre reconheço os que me rodeiam. Fico triste, sinto-me triste e inútil. Estou a tornar-me uma carga de trabalhos. Ainda por cima, já não defeco há cerca de dez dias. Dei entrada no hospital, recebi uma pulseira (parece-me azul) e dez (10) horas depois, após uma série de exames e horas intermináveis, deitado numa maca, num corredor com um fluxo de pessoas que parece uma multidão desgovernada, deram-me alta.
Ufa! Sinto-me melhor e finalmente vou voltar ao meio leito.
Errado! Não posso voltar a casa. Porquê? Não há ambulâncias! Já tinha visto na TV aqueles senhores da ecologia a falarem em espécies – animais e vegetais – em vias de extinção, mas nunca pensei que as ambulâncias corressem igual risco. Mas correm! A administrativa do Hospital informou o meu neto que, no período da noite, é muito difícil, não raras vezes impossível, dispor de um serviço de transporte em ambulância.
Nem pagando há possibilidade de transportar uma pessoa acamada de regresso ao seu lar.
Tenho que pernoitar, numa sala obscurecida, numa maca, em ambiente hospitalar, até ao dia seguinte.
Noticiam que muitos idosos permanecem abandonados pelas suas famílias nos hospitais.
Que medidas já foram tomadas para contrariar esta problemática?
De facto, não há nada mais fácil do que abandonar um idoso num qualquer hospital deste país. Senão, vejamos:
• Vim sozinho na ambulância (não é permitida a presença de ninguém a acompanhar);
• Dificultam a presença de familiares a acompanhar o doente nos serviços de urgência;
• Não há transporte para regressar a casa…
Sinto que este Inverno irá ser rigoroso. Não sei se conseguirei continuar a ver, deitado no meu quarto modesto, através das pequenas janelas, os flocos de neve alvos e gélidos. Mas sinto, na pele, o gelo que bloqueia a qualidade dos cuidados de saúde nosso país…
NOTA: estas palavras poderiam ter sido ditas pelo «meu avô materno» ou por milhares de idosos, deste país envelhecido, que são estigmatizados e mal tratados por uma sociedade que se degrada e desumaniza.
Um grande abraço para um enfermeiro de excepção, pela simpatia e disponibilidade. Ele sabe que me refiro à sua pessoa. Não critico pessoas, critico o sistema, embora este seja alicerçado nas pessoas!