Começo por informar que não concordo com o título dado pelo autor do artigo - «Obviamente demiti-me» PÚBLICO (16/07/2010). É raro alguém demitir-se quando está ao serviço do Estado e em cargos de relevância. Contudo, o título, por si só, já diz muito da personalidade do seu autor: Paulo Trigo Pereira (PTP).
Tendo em consideração o reordenamento da rede escolar foi criado o Observatório das Políticas Locais da Educação (OPLE) com o objectivo de acompanhar o processo de descentralização de competências para os municípios e para ponderar o que deve ser descentralizado e o que deve ser desconcentrado. PTP, professor do ISEG, foi convidado pela anterior Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, para, com Jorge Martins conceber o OPLE. PTP aceitou o convite, impondo apenas uma condição: os centros de investigação e todos os outros investigadores deveriam ter acesso aos dados base. Parece-me que este requisito é lógico. Como é que pode ser realizado o acompanhamento de um processo sem poder aceder aos dados? Na verdade, os dados solicitados nunca foram facultados. Alguém acredita nisto? Afinal de contas, para que é que se cria um Observatório? Não será para aceder aos dados, trabalhá-los, analisá-los, compará-los, reflectir e retirar conclusões que permitam putativas soluções para a melhoria da educação?
A ideia com que se fica é que mais do que trabalho sério, pretende-se atirar areias para os olhos das pessoas. Talvez o Observatório tenha sido constituído apenas para silenciar algumas vozes críticas e passar a ideia de que o processo de reordenamento escolar é sustentado em bases sólidas. O melhor desempenho do OPLE seria, imagino eu, a inacção. Assim, não haveria necessidade alguma de «meter a mão» na mão massa, ou seja, nos dados.
Paulo Trigo Pereira teve coragem e deve ser um exemplo a seguir. Estranha-se que não tenha sido seguido por outros. Os outros talvez se tenham ajustado ao compasso, devagar… devagarinho… parados… Dados? Só se forem os do póquer.