Domingo, 30 de Outubro de 2011

A Desordem dos Médicos

Na linha de pensamento que tenho seguido, no que concerne à postura da Ordem dos Médicos (lobby Médico), passa a transcrever o texto de Nicolau Santos, no suplemento de Economia, do Jornal Expresso de 08 de Outubro de 2011:

A Desordem dos Médicos 

Depois de ser responsável por uma política absurdamente restritiva, que levou a que milhares de jovens portugueses não seguissem a profissão dos seus sonhos: depois de durante mais de três décadas ter prosseguido essa política para defender os interesses dos que já estavam na profissão; depois de ter conseguido que governos atrás de governos se vergassem a essa orientação contrária aos interesses dos país e de milhares de jovens; depois de, por causa disso, ter criado uma geração de jovens médicos de elevadíssima qualidade profissional mas, em muitos casos, com falhas na relação humana com o doente, depois de ter obrigado centenas de jovens a emigrar para a Roménia ou outros países para fazer o curso de medicina; depois de ser evidente os resultados desta política catastrófica, com o país a ter de importar médicos de várias proveniências; eis que a Ordem dos Médicos persiste na sua orientação de dificultar ao máximo a vinda de profissionais para o país, que colmatem a situação de 1,7 milhões de utentes que não dispõem de médicos de família.
Não estamos a falar de cirurgiões ou especialistas, mas sim de médicos de clínica geral. Pois mesmo assim a Ordem dos Médicos consegue inventar entraves burocráticos e fazer com que nove clínicos da Costa Rica estejam há quatro meses em Torres Vedras, a receber salário, pago pelos contribuintes, mas sem poderem exercer a profissão. O argumento é extraordinário: sem o acordo de reciprocidade, ou seja, que médicos portugueses também podem trabalhar na Costa Rica, a Ordem não aceita que aqueles nove clínicos exerçam a profissão em Portugal. Notem bem: não é por falta de habilitações, já devidamente comprovadas, nem por nada que impeça o exercício da medicina; mas sim porque ainda não há acordo de reciprocidade. Pergunta-se: quantos médicos portugueses manifestaram a intenção de ir trabalhar para a Costa Rica? A Ordem pode quantificar esta magna questão? Não, não pode. É só por uma questão de princípio. E não podem os médicos costa-riquenho começar a trabalhar e, entretanto, os dois Governos resolverem dentro de algum tempo o assunto? Como é óbvio a resposta é positiva para todos os portugueses - menos para a Ordem dos Médicos. De um ponto de vista burocrático, as justificações são excelentes, do ponto de vista dos interesses do país e dos utentes são absurdas. Mais uma vez, a Ordem dos Médicos mostra exuberantemente que defende os seus interesses mas não os do país nem os do cidadão. E mais uma vez o Estado se mostra impotente face à Ordem dos Médicos - como, infelizmente, perante outras corporações. Estamos fartos disto.  

Autor do texto: Nicolau Santos

Sábado, 8 de Outubro de 2011

Lobby Médico

 O acesso aos cursos de medicina foi dificultado este ano. Estes cursos continuam a ocupar o pódio das médias mais altas de acesso ao Ensino Superior. Este ano a média mais alta foi registada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (186,3).
O acesso aos cursos é complicadíssimo! Concordo com a exigência, não com a intransigência, intransigência essa que, a breve trecho, estará também presente na hora do acesso à profissão. Consta que a Ordem se prepara para obstruir um pouco mais o já difícil percurso que os senhores doutores têm que obrigatoriamente percorrer.
O reduzido número de vagas e a média exigível são dois factores que têm contribuído para que putativos médicos, talvez com uma vocação, sejam impedidos de correr atrás do «sonho». Nem vale a pena dissertar sobre o valor de uma média no que concerne às futuras práticas…
O que me leva a escrever este artigo é o lobby exercido por esta classe profissional. Não me parece razoável que se continue a dificultar o acesso ao curso de medicina e à profissão quando há uma necessidade diagnosticada de médicos, especialmente médicos de saúde familiar. Esta necessidade tem forte incidência no interior do país e em zonas de cariz mais rural.
Um aluno português que vá estudar para o país vizinho pode pagar só em propinas entre 11 000 e 18 000 euros. Esta semana o jornal Público noticiava que um curso de medicina em alguns países do leste europeu pode atingir os 50 000 euros só em propinas. Junte-se a estas quantias as despesas de alojamento, alimentação, material didáctico… Todas estas receitas poderiam ficar nos cofres nacionais. Mas não… continuamos a preferir, a la longue, contratar médicos estrangeiros, com especial incidência em profissionais de origem sul-americana e do leste europeu. Não deixa de ser um paradoxo!  Mas o absurdo vinha relatado no Público ( 05 de Outubro de 2011), ou seja, foram contratados médicos costa-riquenhos «que chegaram em Maio para reforçar os centros de saúde. Desde então, recebem 2800 euros, com direito a casa. O único senão: não podem trabalhar.»
Parece que estamos à espera que o céu nos caia em cima!